quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

First rule of fight club is.


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Para uma avenca partindo

Caio F. Abreu

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Alfa





"They are playing a game. They are playing at not playing a game. If I show them I see they are. I shall break the rules and they will punish me. I must play their game, of not seeing I see the game."


(R.D. Laing: Knots)


Nos poços


Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobri quê.


O Ovo Apunhalado, Caio. F.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Songs Muses

Lou Reed: Walk On The Wild Side (1972)
"Holly came from Miami FLA.Hitchhiked her way across the USA.Plucked her eyebrows on the wayShaved her leg and then he was a sheShe says, hey babe, take a walk on the wild side"

Blur: Country House (1995)
"City dweller, successful fellaThought to himself, Oops I've got a lot of moneyI'm caught in a rat race terminallyI'm a professional cynic but my heart's not in itI'm paying the price of living life at the limit...He lives in a house, a very big house in the country"

The Beatles: She's Leaving Home (1967)
"Wednesday morning at five o'clock as the day beginsSilently closing her bedroom doorLeaving the note that she hoped would say moreShe goes downstairs to the kitchen clutching her handkerchiefQuietly turning the backdoor key,Stepping outside she is free"

De onde vêm os personagens:
http://www.guardian.co.uk/music/2008/dec/13/people-inspired-pop-songs-muses
Quem achou: http://donttouchmymoleskine.wordpress.com/

Benjamin Button

Um conto de Fitzgerald filmado por David Fincher, com Brad Pitt. Pode dar certo.
The Rolling Stone interview
http://www.rollingstone.com/news/coverstory/24958066

domingo, 7 de dezembro de 2008

As crises periódicas de sobre-produção


Ernest Ezra Mandel, introdução ao marxismo

Todas as contradições inerentes ao modo de produção capitalista culminam periodicamente em crises de sobre-produção. A tendência para essas crises periódicas segue uma marcha cíclica da produção, que atravessa sucessivamente as etapas de reanimação econômica, de alta conjuntura, de "sobre-aquecimento" (boom), de crise e de depressão, todas inerentes a esse modo de produção e só a ele. A amplitude dessas flutuações pode variar de época para época, mas a sua realidade é inevitável em regime capitalista.

Houve crises econômicas (no sentido de interrupção da produção normal) em sociedades pré-capitalistas; existem também nas sociedades pós-capitalistas. Mas nem em um caso nem no outro existem crises de sobre-produção de mercadorias e de capitais, antes de crises de sub-produção de valor de uso. O que caracteriza a crise de sobre-produção capitalista é que os rendimentos baixam, o desemprego cresce, a miséria instala-se, não porque a produção física baixe, mas, ao contrário, porque aumenta de maneira excessiva em relação ao poder de compra disponível. É porque os produtos são invendáveis que a atividade econômica baixa e não porque fisicamente escasseiem.

Na base das crises periódicas de sobre-posição estão, ao mesmo tempo, a baixa da taxa média de lucro, a anarquia da produção capitalista e a tendência a desenvolver a produção sem ter em conta os limites que o modo de distribuição burguês impõe ao consumo das massas laboriosas. Por efeito da baixa da taxa de lucro, uma parte crescente dos capitais já não pode obter um lucro suficiente. Os investimentos reduzem-se. O desemprego cresce. A falta de venda de um número crescente de mercadorias combina-se com esse fator para precipitar a queda geral do emprego, dos rendimentos, do poder de compra e da atividade econômica no seu conjunto.

A crise de sobre-produção é, simultaneamente, o produto destes fatores e o meio de que dispõe o regime capitalista para lhe neutralizar parcialmente os efeitos. A crise provoca a baixa de valor das mercadorias e a falência de numerosas firmas. O capital total sofre pois uma redução em valor. Isso permite uma recuperação da taxa de lucro e da atividade acumulativa. O desemprego maciço permite aumentar a taxa de exploração da mão de obra, o que conduz ao mesmo resultado.

A crise econômica acentua as contradições sociais e pode desembocar numa crise social e política explosiva. Assinala que o regime capitalista está maduro para ser substituído por um regime mais eficaz e mais humano, que deixe de dissipar os recursos humanos e materiais. Mas a crise não provoca automaticamente a derrocada deste regime. Deve ser derrubado pela ação consciente da classe revolucionária que fez nascer: a classe operária.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

The Corporation

Um dos problemas da minha geração é o fato de não haver um inimigo comum a combater. Claro que o capital é um inimigo, mas a minha é a primeira das gerações que passou a vê-lo como algo inevitável e perpétuo. Aquela preguiça burra de se conformar quando as coisas parecem difíceis de serem mudadas, já que existem desde que nascemos e continuam a existir. Daí, os que não se conformam, ficam dispersos. Vão para o Greenpeace, para o PSTU, para algum templo zen budista, para a psicanálise, ou para a arte individualista. Todos lenitivos para tentar viver melhor em meio a uma realidade angustiante permeada pelo produto e pela prevalência da imagem.

Mas ontem vi The Corporation algumas coisas ficaram mais claras. No final das contas, todos esses movimentos, desde os de defesa dos direitos dos animais até os de defesa dos direitos dos trabalhadores, até o indivíduo angustiado no divã, estão tentando se proteger das conseqüências do poder ilimitado das grandes corporações. Elas são a real face do capitalismo hoje, um grupo de no máximo 200 empresas que passam por cima de toda e qualquer lei estatal que defenda algum tipo de interesse coletivo para obter seu único objetivo: lucro máximo.

Daí a ausência de democracia. É possível democracia em um mundo onde as grandes corporações têm total poder para fazer o que quiserem para ter mais e mais lucro? Corporações podem explorar trabalhadores em qualquer país do globo, desrespeitando qualquer lei ambiental e de direitos humanos, e os governos locais ainda agradecem, já que elas estão “incentivando a economia local”. Corporações podem usar meios ilegais para aumentar a produtividade com a conivência de governos e da mídia. E com a globalização, se tornam ainda mais poderosas, fazendo com que leis de cada nação se pareçam mais uma piada. No lugar da Igreja e do Estado, as corporações formam a instituição mais poderosa hoje. Só que ninguém as elegeu, e ninguém as percebe como um poder único.

Que importa a eleição de Obama, sendo que quem realmente governa os EUA e o globo são os grandes grupos empresariais? As regras já estão dadas. E o pior, nem mesmo dentro das empresas há algum tipo de democracia. Nem mesmo os CEOs (jargão militar!) sabem o que estão fazendo. Têm que prestar contas a acionistas, cujo único interesse é a alta rentabilidade. Ou seja, mesmo que bem intencionado e preocupado com o “bem coletivo” um CEO não é capaz de mudar nada dentro de uma corporação, já que a lucratividade é o objetivo maior. Ignorância dos interesses coletivos em nome dos privados: caos.

O caos já existe faz tempo do lado de cá, das conseqüências, dos males ao meio ambiente e da pobreza generalizada, da concentração do capital de forma a impedir qualquer reação, já que é cada vez mais difícil se tornar dono de um meio de produção. Mas agora o caos está passando para o lado de lá. Esse total desrespeito aos interesses coletivos está engolindo o próprio capital que, se der lucro, é capaz de vender a própria corda que vai enforcá-lo. Claro que não sou tão inocente a ponto de achar que ele vai acabar aqui. Ele encontra seus meios de se perpetuar. As crises são feitas justamente para ele se perpetuar, quando muitos estão ganhando, os mais fortes dão um jeito de alijar os bicões da festa.