sexta-feira, 24 de abril de 2009

O pior é que isso não passa. Essa sensação de corpo caindo, incômodo na boca do estômago, solidão incontestável e imutável, olhar desinteressado sobre tudo. Apatia. "Dá uns tapas na cara que sara". Mas até o último suspiro vai haver dias cinzas, mau humor, momentos em que o interesse pelo mundo se reduz a zero. Interesse pelo mundo capitalista então, a negativos. Passo do pessimismo ao otimismo em flashes. Em um segundo acredito que cada instante vale incrivelmente a pena e que a beleza está no instante em si, nada além. No seguinte, nada faz sentido, a beleza se esvai, a feiura fica, o pessimismo arrebata e a raiva domina. Hoje, odeio essa coisa de dia após o outro.

terça-feira, 31 de março de 2009

The wife

Stephan acordou assustado. Teve mais um daqueles pesadelos causados pelo excesso de cobertas. Demorara tanto para dormir e mesmo assim seu sono durara apenas três horas. Angustiava-se. Os olhos pesavam por causa das lágrimas da noite anterior, criavam gosmas nos cílios, talvez uma reação de seu corpo para mantê-los unidos, bem fechados. A claridade entrava pelos buracos da janela e ele amaldiçoava cada fresta com seu mais puro ódio.

Por que tinha de envelhecer? Sentia as costas cada vez mais tensas, como se toda a tralha estivesse ali, em cima de seus ombros. Toda a tralha de feridas que vinha carregando. Experiências que só queria apagar, como no filme do charlie kaufman. Queria esquecer as lembranças do êxtase, para não sentir falta. Uma abstinência eterna, pensou. Minha juventude foi a injeção de heroína que me tornou dependente, gritou.

sábado, 28 de março de 2009

You know we ain't that strong

Woke up this morning
Singing an old, old Beatles song
We're not that strong, my lord
You know we ain't that strong
I hear my voice among others
In the break of day
Hey, brothers
Say, brothers
It's a long long long long way

Mora na filosofia...

Caetano Veloso

quarta-feira, 11 de março de 2009

O segredo

Leila correu tão feio que sentiu vergonha de seu jeito desengonçado de ser. Sentia sempre vergonha de ter nascido, seus gestos eram calculados porque enxergava olhos que a enxergavam por todos os lados. Era um panóptico do qual não conseguia livrar-se. Seus óculos de aros pretos não impediam que tivesse campo visual para essa pseudo percepção dos olhares alheios. Corava de pensar que a tinham visto entrar no ônibus com seu correr estranho, suas gorduras balançando, seus cabelos desgovernados. Era incapaz de se sentir desgovernada. Ao contrário, parecia sempre obedecer a um governo invisível. O governo autoritário dos outros e de si mesmo. Pensou que talvez fosse egocentrismo, arrogância essa sua mania de achar que todos encaravam seus detalhes com tanta atenção. Desde criança era assim. Na escola, não gostava de se sentar na frente para não ser observada. Sentia que, toda vez, ao virar para trás, alguém teria disfarçado o olhar para não ser flagrado. Mas não eram olhares de admiração, e sim a observação minuciosa do ridículo.

Foi quando decidiu rebelar-se. Ela se conhecia e por isso pensou que a expectativa da rebelião era muito mais difícil que a rebelião de verdade. Ela costumava ser assim, sofrer por antecipação, ser feliz por antecipação. Isso a impedia de pensar o presente, estava sempre olhando para o passado ou para o futuro. Daí, seus medos colossais. Medo do porvir e do que o passado faria com o porvir. Como quando alguém está prestes a receber uma pancada na cabeça e o sabe. Como o frio na barriga quando se sabe que vai cair. Leila sabia que sofrer era um alívio tremendo. O sofrimento nunca confirmava a expectativa que ela tinha dele. Era sempre fajuto. Leila era tão exigente consigo mesma e com seus cabelos desgovernados, seu óculos fundo de garrafa, suas gorduras saltando para fora da calça, que era ainda mais exigente com a dor.

Controlou-se para tentar sentir o segundo passando. Fechou os olhos para se concentrar no baixo e na guitarra que entravam pelos fones de ouvido, no presente do presente do presente do presente. Queria receber o presente, e agradeceria. That´s why they call it present. Queria ser livre. Por alguns segundos, ouviu o que chamou de A PERCEPÇÃO PLENA DO UNIVERSO. Aqueles segundos de sabedoria compacta, que passam antes de o cérebro perceber que chegaram. Da liberdade gratuita. Como naquele dia em que viu raios de sol batendo no sofá, iluminando a poeira branca, dançando no ar. Conseguiu ouvir cada nota como viu cada poeira iluminada. Com calma, uma ausência de ansiedade só presente em seus estados de mais pura sonolência. Esse era seu segredo. Sua fórmula mágica. Só deixaria de tremer se encarasse de frente. Deixaria de tremer quando firmasse o punho e batesse forte. Se virasse para os monstros que a censuravam e dissesse FODA-SE. Não iria cair e, se caísse, o chão não era tão ruim assim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Clarice entrevista Hélio Pellegrino

“A psicanálise é, para mim, a ciência da libertação humana. Quem fala em liberdade humana fala sempre em comunicação e encontro. A psicanálise é, portanto, a ciência da comunicação e do encontro. O trabalho psicanalítico visa a construção de um encontro entre duas liberdades. Isto significa que a psicanálise visa o encontro entre duas pessoas, já que o centro da pessoa é a liberdade. Não há liberdade sem abertura ao Outro, sem consentimento na existência do Outro como tal e enquanto tal. Os distúrbios emocionais podem ser conceituados como limitações estruturais dessa abertura, implicando uma perda em disponibilidade com respeito ao Outro. Se minhas ansiedade básicas exigem de mim que faça do Outro um instumento do meu esquema de segurança, já não posso aceitar o Outro em sua essência de ser-outro. Vou inventá-lo à imagem e semelhança de meus temores, torno-me o eixo da referência ao qual o Outro deve referir-se e submeter-se. A psicanálise, sendo um longo convívio humano antiautoritário, é um chamamento à liberdade e à originalidade do paciente e do analista, para que ambos assumam a alegria da comunicação autêntica”.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

High & Dry

It´s the best thing that you ever had.

Quando o bonito tem a luz amarela.





Falling


Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around

Diálogo com avestruz

Você sabe que é só uma fase, que amanhã vai se sentir melhor e torcer pelo seu time favorito. Respire fundo, conte até dez, veja o lado positivo das coisas, um copo meio cheio em vez de meio vazio, todas essas coisas clichês-babacas-auto-ajuda que as pessoas insistem em repetir repetir repetir até que percebem. Você sabe que nada muda e que as coisas estão estáticas mesmo que fluindo. Você sabe que fazer ginástica, fitter, happier, more productive, comfortable, not drinking too much, regular exercise at the gym (3 days a week). I wanna have control, I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul. Coisa mais adolescente, você aí, ouvindo radiohead como se descobrisse o mundo. Morrissey já fazia isso muito antes do seu idolatrado tom yorke. Essa idolatria pelo fracasso tem prazo de validade, fia. Pode até durar uns dias mas você tem que crescer pelo-amor-de-deus. Acho que deveria ter nascido em londres, algo assim, mais parecido com esse seu humor insosso. Crie coragem e get yourself a carreer, compre um carro para ir ao trabalho, vá ao trabalho para conseguir um carro pelo-amor-de-deus. Converse com aquelas pessoas pretensamente sábias até que descubra que. Converse com aqueles que só tem ouvidos para si mesmo. Não, converse com a essência, ela anda por aí parada, correndo por trás de ti e você nem a nota porque está muito preocupado com o fake. Sei que não precisa de muito, além de muita grass em todos os sentidos. Pegue um ônibus e vá. Sei que estou me contradizendo, acabei de te dizer para arranjar um emprego, mas vá fundo, vá para algum lugar que te faça lembrar daquele fim de adolescência começo de juventude onde tudo era rosa mesmo que fosse cinza, onde tudo te dava ao menos um pouco de tesão para continuar on the road. E pare de usar esses itálicos irritantes com se sua lingua fosse diferente da do damon albarn e de todas as bostas que você insiste em ouvir. Acho que toda essa sua pseudoloucura, essa sua pseudodor é culpa da música pop e dos seus filminhos, do christophe honoré e do david fincher. desse seu rockandroll juvenil barato, garotos branquelos e esquisitos dizendo coisas que não combinam com o sol que você também gosta tanto. Acho que na verdade você não sabe quem é, se meio europa meio nordeste, meio paulista meio carioca, meio istambul, meio budapeste. Claro que estou dizendo cidades aleatoriamente, pra ver se provoco alguma reação nessa sua simpatia distante. Pare de ser tão assim, próximo longínquo. Você sabe que é só uma fase e depois dela sabe que o vem é.