Corre corre atrás do próprio rabo. Nada faz sentido e mesmo assim todos falamos falamos. Helena sentou-se por um momento no meio de todos aqueles alunos na sala de aula e pensou. Na verdade, queria parar de pensar na ausência de sentido e focar tão facilmente no trabalho ordenado pelo professor, como faziam seus colegas.
Olhava atenta para as roupas que todos usavam e não conseguia parar de perguntar “por quê?”. Como tinha conseguido viver tantos anos achando que falar, vestir roupas, era normal? Lembrou-se do artigo que tinha lido de manhã, de uma psicanalista que dizia que o amor romântico não existia, era uma criação. Então, pensou, o que nos restava se nem o amor é natural?
Pensou de novo no formulário do plano de saúde que tinha preenchido no trabalho. Eles queriam investigar os hábitos dos funcionários, talvez para saber se o preço era realmente justo e se não se tratavam de suicidas mas, sim, pessoas saudáveis. A última pergunta era "sua vida faz sentido?". Mas que diabo, ela preencheu "não", primeiro. Mas depois lembrou que a vida fazia sentido em si mesmo, o que, no final das contas não é muito, mas é algum sentido. Aí rasurou e preencheu o "sim". Ficou contente com a sua resposta: "sim e não".
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
feixe
Eu eu eu eu, uma hora preciso deixar de ser eu, mas é impossível. Tu não te moves de ti. Cansei de palavras jornalísticas, cansei de racionalidade, objetividade, quero poesia, e às vezes fica tão difícil ver poesia. Às vezes o mundo parece tão duro que nada parece ter nenhum brilho. Parece que a poesia corre corre corre para longe de tudo. Ao redor só se vê uma pseudo orgnaização. Televisão na Globonews, notícias, trânsito. Me esqueço que não é a poesia que tem que vir até mim, eu que tenho que correr atrás dela, feito cão sedento. Quando ela aparece sempre, num feixe de luz, num momento de paz de espírito, eu não a procuro, porque ela apareceu sem eu pedir. É só vir a dor no peito, o nó na garganta, a vontade imensa de dormir, não por sono, mas por necessidade de apagar, que eu clamo por ela, em desespero. Mas ela, obviamente, não aparece quando quero. Resta trancar-me num quarto escuro e esperar.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
que seja doce

Capuccino com bastante gosto de chocolate derretido. Livros um ao lado do outro, todos de autores perfeitamente legíveis hoje, amanhã e sempre. Geladeira velha amarela. Amizade. Ver que o mundo não é pequeno de novo. Ver que o mundo é grande de novo. Dar liberdade aos pensamentos paranóicos que giravam e giravam como borboletas presas num aquário de ponta cabeça. Filmes imperfeitos, mas perfeitos em sua imperfeição. Diálogos que poderiam ser seus, meus, deles, e os são. Diálogos reais que às vezes parecem inverossímeis de tão complexos e cheios de entrelinhas. Diálogos em que, no meio, percebemos que não sabemos bem do que estamos falando e por que estamos falando. Silêncio tranquilo em dois. Família. Casa. Pela primeira vez sentindo-se em casa em casa.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
eixos
Um só ambiente e é lá que transito o tempo inteiro. Banheiro minúsculo, cozinha minúscula e a sujeira potencializa meus tocs e frescuras. Limpo, limpo, limpo, e continuo com a sensação de coceira, cheiro de pó, à espera de que algum monstro/barata/rato me ataque a qualquer momento.
As noites não são tranqüilas. Acordo com barulhos estranhos. A chuva parece mais pesada e eu ainda temo que alague tudo. Meus pensamentos são sempre sobre catástrofes, o pessimismo é sempre anterior e com ele crio na minha cabeça formas de sobrevivência a um possível desastre que para mim é sempre iminente. Parece a infância tudo de novo. Desaconchego, incômodo, medo.
Não sou afeita a mudanças, apesar de me jogar de cara em todas elas. Não sei o que me move a mudar se toda adaptação é sempre tão dolorosa e cansativa. Sempre pensando no quanto o que veio antes era melhor. Desde o taco do chão até o espaço do box, o tipo de pessoas que encontro na rua, os sons e os cheiros.
Nos primeiros meses, é sempre o ruim que me salta aos olhos, nada positivo surge em nada, e esses pensamentos tomam a forma de uma leve obsessão. Não consigo pensar em outra coisa a não ser o quanto o tempo leva as coisas e como as coisas do passado de repente se tornam tão intocáveis e perfeitas. Mesmo que de um passado de poucas horas antes.
A beleza vem raramente. Quando o sol abre por alguns minutos nesses dias de Rio cinzento. Luzes temporárias para um cotidiano ainda feio. Até o Pão de Açúcar embruteceu quando dentro há só pedregulhos. Pedregulhos de pura paranoia, não propriamente tristeza, apenas desajuste. Quando se sabe que não está nos eixos. Sem a tranqüilidade de uma rotina de exercícios, refeições no mesmo horário e oito horas de sono.
As noites não são tranqüilas. Acordo com barulhos estranhos. A chuva parece mais pesada e eu ainda temo que alague tudo. Meus pensamentos são sempre sobre catástrofes, o pessimismo é sempre anterior e com ele crio na minha cabeça formas de sobrevivência a um possível desastre que para mim é sempre iminente. Parece a infância tudo de novo. Desaconchego, incômodo, medo.
Não sou afeita a mudanças, apesar de me jogar de cara em todas elas. Não sei o que me move a mudar se toda adaptação é sempre tão dolorosa e cansativa. Sempre pensando no quanto o que veio antes era melhor. Desde o taco do chão até o espaço do box, o tipo de pessoas que encontro na rua, os sons e os cheiros.
Nos primeiros meses, é sempre o ruim que me salta aos olhos, nada positivo surge em nada, e esses pensamentos tomam a forma de uma leve obsessão. Não consigo pensar em outra coisa a não ser o quanto o tempo leva as coisas e como as coisas do passado de repente se tornam tão intocáveis e perfeitas. Mesmo que de um passado de poucas horas antes.
A beleza vem raramente. Quando o sol abre por alguns minutos nesses dias de Rio cinzento. Luzes temporárias para um cotidiano ainda feio. Até o Pão de Açúcar embruteceu quando dentro há só pedregulhos. Pedregulhos de pura paranoia, não propriamente tristeza, apenas desajuste. Quando se sabe que não está nos eixos. Sem a tranqüilidade de uma rotina de exercícios, refeições no mesmo horário e oito horas de sono.
domingo, 19 de setembro de 2010
corpo mente
Depois de alguns meses sem psicanálise, só hoje consegui entender exatamente o que estava me incomodando no divã. Transformei a psicanálise em ditadura, fascismo, em um monte de regras que eu não podia quebrar. Eu me transformei na minha própria fascista, com um pouco de ajuda da analista. Em uma ausência de sentimento ou qualquer experiência sensorial. Tudo virou discurso, lógica, mas não a lógica bela - minto, em alguns momentos era sim bela, no início - mas no final, tornou-se censura na maior parte do tempo. Auto-censura. Sem arte, sem beleza, sem surpresa, só uma coisa dura, cinza, concreta de tão fria.
Agora que estou em silêncio, me permito sentir-me awkward, com raiva, triste, contente. Tudo isso estava indo ralo abaixo. Não me permitia e sofria mais, porque a proibição intensifica o sentimento. Mas não era culpa da psicanálise, era culpa minha, a psicanálise é o que você faz dela. Talvez, o que aconteceu foi que eu consegui chegar onde tinha de chegar, só precisava parar de andar. Exatamente. Tinha que parar com o dicurso, porque parecia um cachorro caçando o próprio rabo. O discurso me colocou num beco sem saída. Se você descobre que age de uma forma que te faz sofrer, muda, e depois segue em frente é uma coisa. Mas ficar repetindo e repetindo o quanto você não pode agir daquela forma de novo é transformar-se em policial de si mesmo. Agarrar-se ao medo e desistir da vida. Afinal, na sociedade contemporânea não faltam policiais para você, você não precisa ser mais um, e provavelmente não era o que freud tinha em mente.
Por isso, para usar as palavras do meu fisioterapeuta (ah terapias), dance. O corpo não é feito para levantar tijolo, não é feito para enrijecer-se e tornar-se biônico. Então dance, ande de costas. Pra quê? Para nada. Para ser. Não pensar em objetivos, metas, modelos do que é supostamente ser feliz e saudável. Mas sem tornar o não pensar em objetivos em um objetivo e voltar à estaca zero do fascismo. Não ser blasé, criar sim expectativas. Ser humano e não esse projeto de ser biônico que todo mundo quer que você engula goela abaixo. 'Ah não crie expectativas', 'coma arroz integral, mesmo que sua comida fique insosa', 'faça musculação, mesmo que você pareça um soldado'. 'Seja magro, saudável, cool e tenha um amor, mesmo que você não o ame tanto assim'. 'Pareça'.
Agora que estou em silêncio, me permito sentir-me awkward, com raiva, triste, contente. Tudo isso estava indo ralo abaixo. Não me permitia e sofria mais, porque a proibição intensifica o sentimento. Mas não era culpa da psicanálise, era culpa minha, a psicanálise é o que você faz dela. Talvez, o que aconteceu foi que eu consegui chegar onde tinha de chegar, só precisava parar de andar. Exatamente. Tinha que parar com o dicurso, porque parecia um cachorro caçando o próprio rabo. O discurso me colocou num beco sem saída. Se você descobre que age de uma forma que te faz sofrer, muda, e depois segue em frente é uma coisa. Mas ficar repetindo e repetindo o quanto você não pode agir daquela forma de novo é transformar-se em policial de si mesmo. Agarrar-se ao medo e desistir da vida. Afinal, na sociedade contemporânea não faltam policiais para você, você não precisa ser mais um, e provavelmente não era o que freud tinha em mente.
Por isso, para usar as palavras do meu fisioterapeuta (ah terapias), dance. O corpo não é feito para levantar tijolo, não é feito para enrijecer-se e tornar-se biônico. Então dance, ande de costas. Pra quê? Para nada. Para ser. Não pensar em objetivos, metas, modelos do que é supostamente ser feliz e saudável. Mas sem tornar o não pensar em objetivos em um objetivo e voltar à estaca zero do fascismo. Não ser blasé, criar sim expectativas. Ser humano e não esse projeto de ser biônico que todo mundo quer que você engula goela abaixo. 'Ah não crie expectativas', 'coma arroz integral, mesmo que sua comida fique insosa', 'faça musculação, mesmo que você pareça um soldado'. 'Seja magro, saudável, cool e tenha um amor, mesmo que você não o ame tanto assim'. 'Pareça'.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
porquois
tem dias que a inutilidade de existir fica mais forte do que nunca, bombando. qual o sentido de assistir TV, comer, dormir, preocupar-se com afazeres que não são nada além de fuga. claro que sabemos disso todos os dias, mas tem dias tão cinzas que tudo fica com cara de inútil, babaca, a ira toma conta de forma veemente, só que o superego está lá para segurá-la dentro, como numa camisa de força, e transformá-la em nó no peito, ansiedade, angústia, total ausência de tranquilidade. qual o sentido de comprar orquídeas, dizer oi, lavar os pratos, cortar os cabelos, sentir perfumes, ouvir música e perceber que você não é o único a não ver sentido. claro que o sentido está nisso tudo mesmo, em não ver sentido, nos encontros, mas e daí, será que não é se contentar com pouco. apaixonar-se também não é tão com sentido, pois acaba e depois percebemos o quanto nos apaixonamos só para achar um sentido. beber, drogar-se, ler, acreditar. over and over again.
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