quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

leave it be



Meu iPod faz as vezes de oráculo. Ligo no aleatório e voilá... hoje veio essa música do Hellacopters, sugerindo a coisa mais dura de se fazer quando se está com os nervos à flor da pele. Leave it alone. Go home. Give the other cheek. Enfim, essas providências que você, no fundo, sabe que deve tomar e que envolvem, necessariamente, contar até dez e não sucumbir aos ímpetos mais babacas: socar alguém, correr atrás de alguém mais ou menos só para não estar só, encher a cara, comprar o shopping inteiro, enfim, fazer qualquer coisa somente para apagar um sentimento angustiante dentro do peito que, normalmente, não se sabe bem a origem.

Se eu aprendi alguma coisa de útil nesses tempos de solteirice, que querendo ou não são as épocas em que você é capaz de realmente se conhecer, foi não sucumbir a eles, na maioria das vezes. Perceber que, se estou me sentindo realmente triste, não vai ser uma dose de pinga que vai resolver, não vai ser um vestido novo, não vai ser pedindo conselho, não vai ser xingando, não vai ser agindo. Leave it be é a única alternativa. Esperar passar. Depois da tempestade, o sol volta a brilhar. Ou não. Você não vai morrer por isso. Sempre sobrevive.

A segunda coisa que estou tentando fixar nesse meu cerebrozinho é que essa não-atitude serve tanto para fatos que te chateiam como para pessoas. As pessoas visivelmente enlouquecem na sua frente algumas vezes. Elas têm o direito de fazê-lo, da mesma forma que você o faz de vez em quando. Só não vale entrar na onda delas. Tentar desesperadamente fazê-las se sentir melhor, embarcar em chantagens emocionais gratuitas que, no fim, não têm a ver com você, mas com aquela angústia que elas estão sentindo e que não sabem muito bem a origem. Deixar passar. Leave it be. Leave it alone. Repeat.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uma aprendizagem, Clarice L.

A condição humana de Ulisses era maior que a dela que, no entanto, tinha um cotidiano rico. Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar os passos com as coisas a seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição.) (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava.) E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também ele era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser.)

Pareceu-lhe que Ulisses, se ela tivesse coragem de contar-lhe o que sentia, e jamais o faria, se lhe contasse ele responderia mais ou menos assim e bem calmo: a condição não se cura, mas o medo da condição é curável. Ele diria isso ou qualquer outra coisa - irritou-se porque cada vez que lhe ocorria um pensamento mais agudo ou mais sensato como este, ela supusesse que Ulisses era quem o teria,

ela, que reconhecia com gratidão a superioridade geral dos homens que tinham cheiro de homens e não de perfume, e reconhecia com irritação que na verdade esses pensamentos que ela chamava de agudos ou sensatos já eram resultado de sua convivência mais estreita com Ulisses. E mesmo o fato de seus "sofrimentos" serem agora mais espaçados, o que devia a Ulisses - "sofrimentos"? ser era uma dor? E só quando ser não fosse mais uma dor é que Ulisses a consideraria pronta para dormir com ele?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Café com leite

Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: "einmal ist keinmal", uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.

M. Kundera

Chuva é uma droga quando não se trata daquelas chuvas de verão que duram cinco minutos. Quando o céu fica cinza por uma sucessão de dias em que se acaba até esquecendo como é viver à luz do sol. Se conhecer também é uma bosta quando você percebe que a coisa não acaba. Você vai fundo fundo, girando em uma espiral sem fim no sentido do chão, do subsolo. Mergulhando em um cinza-marrom que parece nunca terminar. Cada vez que você cava, descobre uma coisa nova sobre si mesmo, e que te desagrada tantíssimo. Algumas dessas descobertas desagradáveis ficam na sua cabeça por dias, semanas, e você fica lutando para entendê-las melhor, ansiosa pelo próximo teste para ver se vai finalmente passar. Parece um vestibular que você tenta, tenta, tenta, faz cursinho, mas tem sempre uma lição de química que não consegue entender de jeito nenhum. Mas a diferença é que normalmente quando se erra as questões de química, você realmente não sabe a solução. O duro é quando, na vida, você sabe o que está errado, mas não consegue agir de outro modo. Seus reflexos, suas reações parecem vir de algo maior que não está inteiramente sob seu controle. Já percebe que algumas coisas foram perfeitamente resolvidas, mas se dá conta de que existe aquela questãozinha solitária que ainda está em estado de insolubilidade.

...

Aí você cansa. Sente-se fraco, falta energia para nadar contra a maré. Dorme, acorda, e continua olhando para o céu e o subsolo cinza-marrom. Briga com si mesmo, revolta-se contra a inevitabilidade de certas coisas que nascem ali dentro. Por enquanto, elas parecem inevitáveis, serão para sempre? Seria legal ter um ensaiozinho antes, uma vida café com leite before the big bang.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

mera coincidência

Se o leitor quiser saber quem eram e como viviam esses "exilados" intelectuais (de quem Gertrude Stein disse, dirigindo-se a Ernest Hemingway: "vocês todos pertencem a uma geração perdida"), procure ler o belo livro de Samuel Putnam Paris Was Our Mistress. Ou, então, leia O sol também se levanta, de Hemingway, publicado em 1926. Os personagens desse romance — Jake Barnes, impossibilitado de amar devido a um acidente sofrido na guerra, Bret, a oversexed e desiludida lady Ashley, bem como todas as outras figuras — pertencem, todos, à "geração perdida": perambulam pelos bares, cabarés e bas-fonds de Paris, sempre sem rumo e sempre insatisfeitos. Vivem todos sem ambições nem diretrizes, a esmo. Como seres perdidos na geração perdida a que sabem que pertencem, tiram do momento que passa, como filosóficos Omares Khayyáms do século da máquina, tudo o que ele lhes pode dar de vinho, de prazer e de esquecimento. Bebendo sempre, atordoando-se de ruído e de aventuras, realizam uma excursão à Espanha, para embriagarem-se de sangue nas corridas de touros de Pamplona. Mas o centro em torno do qual giravam essas vidas sem rumo era Paris — a dos expatriados de todas as raças.

Prefacio de 'Seis Contos da Era do Jazz e outras histórias', Mr. F.Scott.

I think I smell a rat

Não, você não está ententendo, não podemos continuar porque o que mais desejo em você é a possibilidade de eu ser capaz de mudar você. Trust me, já estive em relações como essa antes, elas podem durar anos, mas não são completamente honestas, você sabe. E eu hoje busco a verdade e, antes de tudo, a construção de algo novo, não ligado às frustrações que nos foram passadas por pais e mães. Mas isso é uma outra coisa, talvez o que eu goste em você seja justamente a nossa incompatibilidade, por um medo meu de realmente concretizá-Lo. Você deve estar achando essa história muito freudiana, melodramática, racionalzinha, mas essa lógica até que é bonita, a razão às vezes pode ser bela, apenas não tanto quando o sentimento, obviamente. Deve ser por isso a minha obsessão recente por fitzgerald, flaubert, enquanto minhas clarices e caios se empoeiram. Bom, bom vou indo antes que volte atrás. Antes que essas conclusões que me trouxeram tanta tranqüilidade se esvaiam e voltem a se tornar conflito, inferno, sensação de quem sabe que alguma coisa cheira mal. Você sabe que até mesmo essa vontade, já transformada em ação, incontrolável de te explicar essas coisas vem de uma outra vontade de querer mudar tudo, para que você enxergue o claro que eu vejo e depois dessa conversa tudo se transforme. Todo desejo parte de uma esperança e se te espero é porque te desejo. Mas tudo é uma questão de esquecimento é só se afastar da vontade de esperar e portanto desejar que tudo está perdido, no bom sentido para todos os envolvidos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

As letras da anunciada

Também me sinto como disse o outro. Também obrigada, mobilizada, sina de permanecer em uma inércia de coisas, atos, pessoas que não me levarão a. Não que eu quisesse chegar a, já perdi tal ilusão. Sinto-me caminhando flutuante. Sem chão, sem razão. Inércia. Apatia. E cansaço, físico, mental. As coisas de que gosto se tornam cada vez mais raras e comumente não estão ligadas à realidade. O contato que quero sim, não acontece com tanta freqüência mais, como eu achava que ocorreria pra sempre, no passado. Antes o mundo era grande, hoje o mundo é maior, mas desvendado e desinteressante. A beleza já não é tão bela. Talvez pela consciência de sua desimportância.

Não me sinto mais comprometido com nada — mas continuo testemunha do espetáculo, não mais cúmplice nem vítima. C. H. Cony.

Engraçada a identificação com alguém tão velho. Vivi pouco mas sinto rugas de tudo, rusgas. Mesmo as coisas que verei não serão tão surpreendentes assim. Posso estar cuspindo pra cima, mas sinto um sono incessante. Como se meu corpo pedisse pare. Será que teria o poder de convencer a mim mesma e a tudo que rege o tudo que o meu tudo deveria? De onde vem essa paz e esse inferno?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Bolotas de poeira

Quase todos os dias aquela paz reinava sem explicação. Clotilde achava que eram os remédios, aqueles bem naturais que a tornavam cada vez mais natural. Suas mãos estavam mais leves, seu espírito, mais limpo e belo. Nem mesmo as bolotas de poeira nos cantos da casa a incomodavam tanto. Não sentava no chão, mas também não espirrava, enlouquecida. As adversidades eram cada vez mais belas em sua diversidade. Aceitou o novo e o velho como irmãos. Chorava de felicidade, ria sem pensar. — Comemore todos os seus aniversários, Clotilde, a vida é para ser celebrada. Via o real pelo buraco de uma câmara escura. Tudo merecia ser registrado, do mais simples ao mais difícil de ser compreendido. — Quando o homem percebe a heroicidade de seu cotidiano, aquele desejo de ser o herói impossível se acalma. Percebe que não precisa fazer além de.